Reportagem "Dona Berta - Vinhos com Tradição e Inovação"

 

Depois de há cerca de três décadas ter iniciado um projecto de reconversão e beneficiação do património vitícola da Quinta, com a plantação de novas vinhas, e de ter viajado pelo mundo, Hernâni Verdelho apostou definitivamente nos vinhos, produzindo alguns dos melhores néctares daquela região, numa propriedade com cerca de 12 hectares.

"Diria que os meus vinhos são de uma região fantástica, muito elegantes e amigos da comida, que não nos deixam mal dispostos”, diz Hernâni Verdelho à Gazeta Rural. Além disso, acrescenta, “podem acompanhar diferentes pratos”, de peixe, carne ou uma tábua de queijos da região. Destaque para o branco, da casta rabigato, recuperada na quinta por Virgílio Loureiro, o enólogo responsável pelos vinhos ali produzidos, mas também um tinto de casta Sousão, que acompanha bem um prato de carne, mas, especialmente, um prato de lampreia.

Adega modernizada
Apostado em modernizar e criar condições para produzir cada vez melhores vinhos, Hernâni Verdelho procedeu recentemente à modernização da adega, semi-enterrada e isolada termicamente, na qual tem também instalado um pequeno laboratório, devidamente equipado, e um lagar para receber as uvas que irão ser esmagadas pelos homens à maneira de antigamente.

Hernâni Verdelho teima em produzir vinhos à maneira tradicional, recusando fazer vinhos iguais. “Os enólogos começam a usar métodos de vinificação muito semelhantes e os vinhos começam a ser iguais”, refere, lembrando o facto de numa feira me Lisboa, “uns americanos, depois de andarem três horas a provar vinhos, vieram-me dar os parabéns, porque lhes apresentei um branco e três tintos completamente distintos e diferentes dos outros”.”Você marca pela diferença, disseram-me, o que me deixou muito agradado”, afirmou satisfeito, pois tal contacto vai permitir-lhe começar a exportar os seus vinhos para os Estados Unidos.
Virgílio Loureiro foi a peça chave
Hernâni Verdelho fala apaixonadamente de vinhos, em especial dos seus, e não esquece o papel de Virgílio Loureiro, que em muito contribui para esta aposta. “Seria injusto da minha parte não referir o nome do Professor Virgílio Loureiro”, principal responsável pelo lançamento do vinho branco da casta Rabigato. E conta a história: “Foi num jantar há 10 anos em que ele me disse que queria fazer uma experiência com uma casta nova, Rabigato, que, sabia, daria um grande vinho. Eu disse-lhe que tinha a casta, ele visitou a vinha e fizemos a primeira experiência em 2001, com um método de produção totalmente introduzido por ele”. A verdade, acrescenta, “é que o vinho surtiu efeito, ao ponto de numa mostra de vinhos em Lisboa, várias pessoas que o provaram foram unânimes na sua aprovação e alguns compradores gostaram tanto, que um deles quis comprar toda a produção, de apenas 2500 garrafas, pretensão a que não acedi”.
Para o proprietário da Quinta do Carrenho, “o Rabigato é uma casta de elevado potencial, que faz grandes vinhos e, quem sabe, um dia virá a ser o Chardonnay português, uma coisa equivalente”.
Um passo de cada vez num projecto sustentável 
Ao longo dos anos Hernâni Verdelho teimou em dar passos à medida das suas posses. A Quinta do Carrenho, diz, “vai indo aos poucos, desenvolvendo-se à medida que o projecto for andando e que seja viável”. Garante que vai “continuar a planta vinhas, sem entrar em grandes tormentos”, mas com um “desenvolvimento sustentável, de modo que a gente o possa segurar bem, com todos os braços e com todas as forças, sem deixar cair o projecto.
Quando questionado sobre quanto já investiu na Quinta, Hernâni Verdelho é evasivo. “Não tenho contabilidade analítica organizada, mas tenho na minha cabeça tudo bem organizado e sei aproximadamente quanto gastei”, acrescentando que “o essencial é chegar ao fim do ano e não perder dinheiro”.
O que é preciso, diz, “é que o projecto seja rentável, porque se não for, mais vale parar logo e não continuar, porque dá mau resultado”.
Até agora, “não tenho perdido dinheiro e enquanto a quinta gerar o suficiente para me pagar, continuar a fazer a minha vida modesta, eu e a minha mulher, e dar para pagar ao pessoal e às famílias que andam aqui a trabalhar, já me sinto satisfeito”.
Dona Berta: Um tributo à mãe
Do alto do monte, onde começam as vinhas e se pode avistar toda a propriedade, para além de uma paisagem deslumbrante, Hernâni Verdelho recorda o tio-avô que parava naquele local, de pois de ir a banhos nas termas Longroiva. Este, “que tinha uma visão larga, logo perspectivou que ali haveria de fazer ‘uma grande quinta’”.
Depois de plantar as vinhas e começar a produzir vinho, veio “um grande problema”, que foi “que o nome é que vou dar aos vinhos”. Hernâni Verdelho lembra que um colega da EDP, sabendo que era muito chegado à mãe, lhe disse para por o nome dela. “Depois da aprovação do professor Virgílio Loureiro, acabei por registar o nome Dona Berta”. Em jeito de desabafo e a terminar a conversa, Hernâni Verdelho, olhando lá do alto para a Quinta, deixou escapar. “acho que a minha mãe me está a ajudar nisto”, rematou.
José Luís Araújo
In Gazeta Rural, n.º 90, 15 de Julho de 2008.

 

 

 

 

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